Minha participação na COP-30 / Belém – PA

Compartilhe:

Primeiramente, é importante compreender o que é a COP.
COP é a sigla para Conferência das Partes, termo que se refere aos países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, conhecida internacionalmente por sua sigla em inglês: UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change).

Mais do que uma simples reunião entre as partes de um tratado internacional, a COP tornou-se, ao longo dos anos, o principal fórum global de debates sobre o meio ambiente e, de modo particular, sobre as mudanças climáticas. A Conferência reúne representantes de mais de 196 países para discutir questões ambientais em sentido amplo e os desafios específicos da crise climática.

A primeira Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima ocorreu entre os dias 28 de março e 7 de abril de 1995, em Berlim, na Alemanha. A numeração das COPs é sequencial e não guarda relação direta com o ano de sua realização.

A COP29 aconteceu em Baku, capital do Azerbaijão, entre os dias 11 e 22 de novembro de 2024. Já em novembro de 2025, a COP realizou-se, pela primeira vez na história, no coração da Amazônia, em Belém do Pará.

A Conferência atrai delegações dos países-membros das Nações Unidas, incluindo chefes de Estado, diplomatas, empresários, investidores, pesquisadores, representantes de organizações não governamentais (ONGs), ativistas, membros da sociedade civil e diversos outros atores sociais.

Enquanto Igreja Católica no Brasil, inspirada especialmente pelo legado do Papa Francisco — que nos convoca a uma conversão ecológica integral —, somos desafiados a promover mudanças nas estruturas econômicas e sociais que perpetuam a destruição ambiental e a injustiça, frequentemente justificadas sob o pretexto de progresso e desenvolvimento.

Ao longo de 2025, a Igreja no Brasil caminhou de forma organizada rumo à COP30, promovendo eventos Pré-COP por macrorregiões. Esses encontros formativos tiveram como objetivo preparar lideranças e agentes pastorais para o debate climático, aprofundando a compreensão sobre as mudanças climáticas, suas causas, consequências e implicações sociais, econômicas e ambientais.

Esse processo formativo, realizado de modo presencial e virtual, estruturou-se em três etapas:

  1. Preparar – Fase marcada pela escuta das realidades locais, com levantamento dos desafios e iniciativas existentes. Utilizou-se a metodologia da Roda de Conversa como instrumento de diagnóstico socioambiental das realidades regionais.
  2. Semear – Nos eventos Pré-COP, realizaram-se atividades formativas, painéis e debates que favoreceram a reflexão e a partilha de experiências. As pessoas participantes foram capacitadas como multiplicadoras, para promover reflexões e ações concretas em suas comunidades.
  3. Cultivar – Após os eventos, os Regionais da CNBB comprometeram-se a acompanhar os multiplicadores, garantindo suporte contínuo, promovendo encontros de avaliação, divulgando boas práticas e realizando novas iniciativas conforme as realidades locais.

No Regional Noroeste, que compreende Rondônia, Acre e o sul do Amazonas, esse momento preparatório foi desenvolvido por meio de uma formação virtual realizada ao longo de três noites, mobilizando lideranças e agentes pastorais.

Durante a COP30, realizada em Belém entre os dias 10 e 16 de novembro de 2025, tive a graça de representar a CNBB Noroeste, juntamente com outros delegados de diversas instituições engajadas no debate socioambiental.

O acesso à Zona Verde possibilitou acompanhar exposições, conferências, iniciativas de sustentabilidade e outras atividades abertas ao público. Paralelamente, havia uma extensa agenda de eventos transversais, promovidos pela Arquidiocese de Belém, pela REPAM, pela CNBB e por diversas organizações parceiras. Diante da riqueza da programação, tornava-se até difícil escolher em quais atividades participar.

Participei ativamente de diversas ações distribuídas em polos específicos.
No Polo Social, acompanhei tendas e painéis, simpósio nacional, a Caminhada dos Mártires com celebração eucarística na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, o seminário Por uma Terra sem Males e a exibição de documentários sobre a vida dos Mártires da Amazônia.

No Polo Sustentabilidade, participei de mesas redondas sobre Ecologia Integral em seus diversos aspectos, momentos de troca de experiências e plenárias com organismos regionais.

Integrei também as atividades do Tapiri Ecumênico-Inter-religioso, coordenado pelo CESE – Centro de Estudo e Serviço Ecumênico, sediado na Catedral Anglicana de Santa Maria, incluindo caminhada e celebração ecumênica e inter-religiosa.

Outro momento marcante foi a Marcha Global pelo Clima, expressão profética de mobilização internacional, especialmente articulada pela Cúpula dos Povos. Em edições anteriores da COP, manifestações populares chegaram a ser proibidas. Em Belém, porém, a experiência de mobilização surpreendeu a todos: vozes vindas de todas as partes clamavam pela salvaguarda do planeta. Destacou-se a forte presença indígena, que carregava uma grande faixa com a mensagem: “A resposta somos nós”.

Um momento igualmente envolvente foi o banquetaço, realizado em uma das maiores praças de Belém. O evento reuniu artistas, apresentações musicais e reflexões em torno do tema “alimentar-se é um ato político”. Três longas mesas, ricamente ornamentadas, estavam repletas de alimentos provenientes da agroecologia, da agricultura familiar e da organização das comunidades camponesas. Tudo foi distribuído gratuitamente, como sinal concreto de partilha e justiça social.

A experiência de participar da COP amplia os horizontes e aprofunda a consciência sobre o próprio território, suas demandas e seus desafios, ao mesmo tempo em que evidencia a interdependência entre as questões locais e planetárias. Sobretudo na perspectiva socio-religiosa, reafirma-se uma convicção fundamental: “Nenhuma espiritualidade sobrevive em um planeta morto.”

+ Benedito Araújo
Diocese de Guajará-Mirim

Guajará-Mirim, 27 de dezembro de 2025.

Posts Relacionados

Facebook