HOMILIA DA MISSA CRISMAL

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Paróquia N. S. do Perpetuo Socorro – Município de Corumbiara

31 de Março de 2022 -19hs30mn

Is. 61, 3a.6a.8b-9; Sl 88;  Ap. 1, 5-8; Lc 4, 16-21

 

Saudação – Motivação

Esta missa crismal é memorável e muito preciosa para toda Igreja, é o momento em que somos envolvidos pela espiritualidade da benção dos Santos Óleos e a renovação das promessas sacerdotais.

Saúdo a todos e todas, saudação particular a você que celebra conosco através da Rádio Educadora da nossa Diocese, da rádio cristal e pelos meio digitais.

Agradeço de coração à colhida desta Paróquia dedicada a nossa Senhora do Perpetuo Socorro que de forma envolvente, ao longo do ano viveu a expectativa deste momento, e como sempre nos acolhe com muito carinho.

Com certeza, lá do céu, nosso estimado Pe. Raimundo no resplendor da luz perpétua intercede por nós e sua memoria continuará viva no nosso meio.   

Esta celebração sempre antecede a grande semana santa. Em 2020 só conseguimos realiza-la no mês de outubro, em 2021 somente no mês de junho, tudo por conta das exigências do tempo pandêmico. Tempo que ainda nos desafia com tanta complexidade, portanto não podemos “baixar a guarda”, ainda é cedo para qualquer descuido e liberação total, a pandemia ainda não acabou.

Meditando a Palavra de Deus

Irmãos e irmãs, nós sabemos que, o livro do Apocalipse é estranho e difícil mais é também belo e interpelante. O contexto da leitura reservada para hoje é o final do reinado do Imperador Domiciano, por volta do ano 95, onde as comunidades cristãs da Ásia Menor vivem uma crise interna resultante de heresias, falta de entusiasmo, fracasso e indiferença de dar testemunho da própria fé.

Existia também uma grande crise externa por conta da violenta perseguição que o imperador ordenou contra os cristãos. Muitos seguidores de Jesus eram perseguidos e assassinados, outros abandonavam o Evangelho e passavam para o lado do império.

É neste contexto de crise, perseguição, medo e martírio que foi escrito o apocalipse; o objetivo do autor é levar os crentes a revitalizar o compromisso com Jesus e a não perder a esperança.

É um convite para um diálogo, convite para aceitar a Cristo como centro da história humana.

O Evangelho de Lucas e a leitura de Isaias me fez pensar na alegria da nossa família, do nosso bairro, dos nossos amigos quando nós os visitamos; retornar, retornar a casa gera sempre uma expectativa.

E foi esse sentimento de atenta expectativa que tomou conta da capela de Nazaré com a chegada de Jesus. Todos estão maravilhados de olhos fixos nele. O espanto, a inquietação e a revolta dos correligionários começam quando Jesus a partir da palavra proclamada detalha sua missão, o ano da graça de que falara Isaias, a restauração da justiça.

Há poucos dias atrás acompanhamos este tempo da graça oferecido por Jesus quando falava da viúva de Sarepta, o leproso de Sidonia e tantos outros agraciados, em fim é a catequese a partir do cartaz da Campanha da Fraternidade deste ano, mulher encurvada sob o peso da opressão, mulher acolhida, perdoada e enviada pela misericórdia do Pai: “fala com amor, ensina com sabedoria” (cf.Pr 31,26).   

Diz o texto que, eles encheram-se de cólera, raiva, ficaram furiosos a ponto de ter um comportamento animalesco, expulsaram Jesus para fora da cidade. E o desfecho de tudo acontece pelo silencio que é verdade e gera vitória diante dos seus algozes. É a clara opção pela justiça ancorada na força de Deus.

O Senhor me ungiu! O Senhor me enviou! É o óleo da alegria em vez da aflição!  É a coroa em vez de cinzas! É o ano da graça do senhor! É o hoje da redenção de Deus na vida!         

Meditando a vida presbiteral

Queridos padres e diáconos, já é do vosso conhecimento a partilha que farei, referente ao discurso do papa Francisco aos participantes do simpósio “para uma teologia  fundamental do sacerdócio” promovido pela congregação para os bispos (17/02/22).

O Papa Francisco refletiu sobre a importância de quatro proximidades na vida: Proximidade com Deus, proximidade com o bispo, proximidade com os presbíteros e proximidade com as pessoas.

Permitam-me retomar esta partilha, porém eu tomei a liberdade de pinçar dois pensamentos iluminadores da nossa identidade presbiteral. Essa reflexão serve para mim como bispo, para você padre e diácono e consequentemente para todo batizado e povo de Deus. 

Sobre a proximidade com Deus, destaco:

“O sacerdote é, antes de tudo, convidado a cultivar esta proximidade, intimidade com Deus, e desta relação poderá tirar todas as forças necessárias ao seu ministério. A relação com Deus é, por assim dizer, o enxerto que nos mantém dentro de um vínculo de fecundidade.

Sem um relacionamento significativo com o Senhor, nosso ministério tende a se tornar estéril. A proximidade com Jesus, o contato com a sua Palavra, permite-nos comparar a nossa vida com a dele e aprender (…) a defender-nos dos “escândalos”.

Como foi para o Mestre, você passará por momentos de alegria e festas de casamento, de milagres e curas, de multiplicação de pães e de descanso. Haverá momentos em que alguém poderá ser elogiado, mas também haverá horas de ingratidão, de rejeição, de dúvida e solidão, a ponto de ter que dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46).

 A proximidade com Jesus nos convida a não temer nenhuma dessas horas – não porque somos fortes, mas porque olhamos para ele, nos apegamos a ele e lhe dizemos: «Senhor, não me deixes cair em tentação!(…).

Esta proximidade com Deus assume, por vezes, a forma de uma luta: lutar com o Senhor, sobretudo nos momentos em que a sua ausência se faz sentir mais na vida do sacerdote ou na vida das pessoas que lhe são confiadas…

Muitas crises sacerdotais têm na sua origem uma escassa vida de oração, uma falta de intimidade com o Senhor, uma redução da vida espiritual a uma mera prática religiosa.

Muitas vezes, por exemplo, na vida sacerdotal, a oração é praticada apenas como um dever, esquecendo que a amizade e o amor não podem ser impostos como uma regra externa, mas é uma escolha fundamental do nosso coração.

 Um sacerdote que reza permanece, na raiz, um cristão que compreendeu plenamente o dom recebido no Batismo. Um padre que reza é um filho que se lembra continuamente de ser filho e de ter um Pai que o ama.

A segunda e última proximidade é a proximidade com as pessoas:

Uma das características cruciais da nossa sociedade de “redes” é que o sentimento de orfanato abunda, este é um fenômeno atual. Conectados a tudo e a todos, nos falta à experiência do pertencimento, que é muito mais do que uma conexão.

Esta pertença, por sua vez, será o antídoto contra uma deformação da vocação que surge precisamente do esquecimento de que a vida sacerdotal é devida aos outros – ao Senhor e às pessoas que lhe foram confiadas -. Esse esquecimento está na base do clericalismo e de suas consequências.

O clericalismo é uma perversão, e uma de suas características é  a rigidez,  o clericalismo é uma perversão porque se constitui em “distâncias”. Quando penso em clericalismo, penso também na clericalização dos leigos: aquela promoção de uma pequena elite que, em torno do sacerdote, acaba também por distorcer a sua própria missão fundamental ( cf. Gaudium et spes, 44), a do leigo.

Lembremos que “a missão ao coração do povo não é parte da minha vida, nem um enfeite que eu possa tirar, não é um apêndice, nem um momento entre muitos de minha existência. Devemos reconhecer-nos marcados por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, aliviar, curar, libertar”

( Evangelii gaudium , 273 ).

Finaliza o nosso Pai, o Papa, Gostaria de relacionar esta proximidade com o Povo de Deus com a proximidade com Deus, porque a oração do pastor se nutre e se encarna no coração do Povo de Deus. Povo, que ele silenciosamente apresenta ao Senhor para ungi-los com o dom do Espírito Santo. É a esperança do pastor que confia e luta para que o Senhor abençoe seu povo.

Peçamos ao Senhor que nos assista com sua graça misericordiosa, sob a proteção de N. S. do Seringueiro.

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