Bento XVI e os anos do pontificado

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“Quem deseja fugir à incerteza da fé, há de experimentar a incerteza da descrença que, por sua vez, jamais conseguirá resolver sem sombra de dúvida a questão de se, por acaso, a fé não se cobre com a verdade”.

Vatican News

Com a sua demissão Bento XVI entrou para a história da Igreja, depois de somente oito anos de pontificado. O “Papa professor” da Baviera, que nunca desejou ser o sucessor do gigante polonês, conhecia seus próprios limites. Mas, no momento da eleição, pensou estoicamente: “um pequeno Papa ao lado de um grande, que possa dar sua própria contribuição”. Pois bem, Joseph Ratzinger via-se como um pequeno e diligente Papa.

O Papa e o “rosto manchado da Igreja”

Infelizmente, o início do seu pontificado, foi marcado por crises e momentos dramáticos. Segundo os maldosos os oito anos de Bento foram quase como uma série de desventuras. Começando pelo discurso em Regensburg de 2006, com o qual incomodou o mundo muçulmano, à reabilitação do Bispo Richard Williamson, tradicionalista e negacionista do holocausto, até a gestão dos escândalos de abusos sexuais eclesiais. Para não falar do escândalo Vatileaks de 2012, que tornou público uma série de documentos reservados. O caso, no qual estava envolvido seu mordomo pessoal, um dos mais estreitos colaboradores, custou muita energia ao Papa.

A mídia e a opinião pública culparam o Papa em primeira pessoa, pelos erros cada vez mais graves, nas comunicações internas como nas externas à Santa Sé. Erros que Bento XVI admitiu sem hesitações. Ao mesmo tempo, a cúpula da Igreja, no decorrer desta crise mostrou-se – não sempre erroneamente – como um grupo intencionado exclusivamente em defender os próprios interesses. Também na sua última missa na Basílica de São Pedro (oportunamente na Quarta-feira de Cinzas com a presença dos membros da alta Cúria), o Papa demissionário lamentou-se como “o rosto da Igreja, às vezes, fica deturpado”. “Penso de modo particular nas culpas contra a unidade da Igreja, nas divisões no corpo eclesial”. Alertou para que se “viva numa comunhão eclesial mais intensa e palpável, superando individualismos e rivalidades”. Jesus denunciava a “hipocrisia religiosa”, “o comportamento que quer dar nas vistas. O verdadeiro discípulo… não procura servir-se a si mesmo ou ao público, mas ao seu Senhor”.

Sem dúvida Bento XVI não era um administrador extraordinário. Mesmo assim, quem acompanhou o seu pontificado em Roma, surpreendeu-se pela quantidade de desaprovações lançadas contra este sucessor de Pedro, mesmo de sua terra natal, a Alemanha.

Aliás, parecia que não quisesse nem mesmo tentar se defender: “A coragem não consiste em ferir com violência, na agressividade, mas em deixar-se ferir, e fazer frente aos critérios das opiniões dominantes”, dissera em uma homilia na Basílica do Vaticano no início de janeiro de 2013. “O critério ao qual no submetemos não é a aprovação das opiniões dominantes; o critério é o próprio Senhor. Se defendemos a Sua causa, conquistaremos incessantemente, pela graça de Deus, pessoas para o caminho do Evangelho; mas inevitavelmente também seremos flagelados por aqueles cujas vidas estão em contraste com o Evangelho”.

Este ponto de vista esclarece que ele não se dedicava com trabalho escrupuloso exclusivamente aos melhoramentos concretos e às reformas na Cúria Romana. Bento XVI preocupava-se também com a transparência nas operações contra as suspeitas de reciclagem de dinheiro no Banco do Vaticano IOR, e teve um particular cuidado na nomeação de Bispos competentes, assim como sem ulterior demora demitiu Bispos não competentes como nenhum Papa tinha ousado fazer antes.

Também, a mensagem deste Papa passou quase imperceptível à opinião pública. Uma mensagem silenciosa. Deveria ter-se ouvido com atenção, tentado compreendê-la com profundidade: somente assim se poderia aprender alguma coisa sobre a alegria da Fé. E sobre o desejo de Deus.

“Nós sentimos o amor”

“A Igreja vive, a Igreja é jovem”, disse Bento XVI, um dos Papas mais idosos a assumir o cargo de pontífice. “A fé é fácil”. “É belo ser cristãos”. “Quem tem esperança vive diversamente”. “Quem crê nunca está sozinho”. “Onde há Deus, há futuro”. “A âncora do coração chega até o trono de Deus”. “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”. O fino pensador Ratzinger – já temido guardião da fé do Vaticano – quando quis, soube encontrar fórmulas atraentes para esclarecer o que é essencial na fé.

Sobre isso, ele se expressa muito bem na sua primeira Encíclica de 2005, Deus Caritas est. “Nós cremos no amor de Deus – deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida”, escreveu o Papa. “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. O amor é o centro da fé e da vida cristã, é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro. O amor cresce através do amor. É divino porque vem de Deus e nos une a Deus…”. O teólogo Wolfgang Beinert considera Deus Caritas est “um grande documento da Igreja, que deveria mudar se levasse a sério esta encíclica”.

Bento XVI: um homem de palavra, sem dúvida. Um erudito na tradição dos antigos Padres da Igreja. Combateu pela reconciliação dos pólos aparentemente opostos: fé e razão. Alta teologia e confiança filial em Deus. Nitidez e doçura. A adesão ao dogma e colóquios com os céticos e os descrentes. Luta contra o “relativismo” – e a demissão, que praticamente relativizaram o seu ofício.

Tinha uma personalidade complexa, e em parte provavelmente contraditória. Alemão na Itália, há mais de 30 anos membro da Cúria, e até o fim alheio a esta Cúria. Um homem que contemporaneamente exprimiu a vontade de que os cristãos sejam verdadeiramente o sal da terra (título de seu livro como Cardeal que entrou na classificação dos mais vendidos), e que a Igreja se “secularize” – frase de seu famoso discurso no Konzerthaus de Freiburg em 2011. Um homem que assumiu uma comunidade cristã pequena, por assim dizer ressequida, e que tomou a iniciativa de encaminhar o projeto de uma nova evangelização na Europa, herdado do seu predecessor. Não era e não é fácil encontrar uma definição para Joseph Ratzinger.

Amava a liturgia e reabilitou a forma da celebração da Missa, em voga desde antes do Concílio Vaticano II. Ainda assim, no decorrer de uma das suas últimas aparições como Papa, esclareceu o ponto principal sobre as carências da chamada, de maneira errônea por muitos, “Missa antiga”: a “riqueza e a profundidade da liturgia”, foram praticamente confinados “no Missal Romano dos sacerdotes”, enquanto as pessoas comuns rezam com seus próprios livros de oração “a ponto de se tornarem quase duas liturgias paralelas”. A ação litúrgica mostrou nos anos anteriores ao Concílio “que na realidade a liturgia dos altares e a liturgia do povo deveriam ser uma única liturgia, uma coparticipação ativa”.

Diálogos sem favores

Desde o início Bento tinha visto os limites e os obstáculos ao diálogo com o Islã de modo mais concreto do que João Paulo II, e o seu discurso em Regensburg, intencionalmente ou não, foi um claro pedido aos muçulmanos, depois de 11 de setembro, do porquê fazem uso da violência. Ainda assim foi justamente este Papa que encaminhou um novo diálogo com os pensadores islâmicos, um verdadeiro e próprio Fórum católico-muçulmano. E tem mais: ele comoveu os muçulmanos de todo o mundo, quando no final de 2006, por alguns momentos, recolheu-se em oração na Mesquita Blu de Istambul. Também foi o primeiro Papa a ser recebido em audiência privada pelo rei saudita Abdullah, o “guardião dos lugares santos da Meca e da Medina”. Em consequência disso, em 2012 Abdullah instituiu em Viena um centro para o diálogo inter-religioso: para estudiosos islâmicos poderem discutir sobre liberdade religiosa. Portanto nenhum balanço negativo no confronto entre Bento XVI e o Islã. De modo muito claro e honesto levou o diálogo a questões delicadas. A longo prazo isto foi um bem até mesmo para o diálogo religioso. Entre católicos e muçulmanos houve um “acordo imediato” em “questões de vida real”, disse o estudioso islâmico Mouhanad Khorchide.

E a relação de Bento XVI com o judaísmo? A partir do debate sobre a controversa “oração da Sexta-feira Santa”, o diálogo com o judeus foi disturbado apenas pela mídia. Contrariando a opinião da sua Secretaria de Estado, este Papa quis fazer uma visita ao ex-campo de concentração de Auschwitz, durante a sua viagem à Polônia em 2006: tinha consciência da própria responsabilidade especial de Papa vindo da Alemanha. Bento via os judeus como os Escolhidos, nunca como o povo de Deus rejeitado. Era amigo dos rabinos, visitou as sinagogas de Colônia, Roma e Nova Yok. No mundo, muitos o consideravam um Papa “imóvel”: todavia fez grandes passos em relação aos cristãos ortodoxos, e era amigo do Patriarca Ecumênico Bartolomeu, que fez com que rezasse diante dos Bispos na Capela Sistina.

Quanto as relações com os protestantes e reformados, alguns dos quais, como a ex-bispo Margot Käßmann, simplesmente não esperavam “nada” deste Papa. Na época que era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, com a declaração Dominus Iesus Ratzinger tinha conseguido a simpatia de muitos deles. Esta declaração não reconhecia os protestantes dentro da igreja no sentido católico (inicialmente ele tinha primeiro confirmado a posição protestante, mas os protestantes, na realidade, tinham uma visão diferente da Igreja). Mas queria aplicar-lhes a etiqueta de “comunidade eclesial”. Portanto, desde o início, as Igrejas da Reforma tinham um comportamento tímido com Bento XVI, mesmo sendo ele, sem dúvida, o Papa “mais evangélico” de todos os que já ocuparam o trono de Pedro. Em toda a sua vida de professor, Bispo e Papa ele se inspirou em Agostinho, referia-se à Bíblia como regra de fé e sempre recordava que o homem depende totalmente do amor e da graça de Deus. Por isso, provavelmente não é um caso que ao colaborar estreitamente com a Federação Luterana Mundial tenham chegado à Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. O fato de que esta declaração posteriormente tenha sido rejeitada por muitos teólogos evangélicos deve ter sido duro golpe para Ratzinger. Para muitos há uma conexão entre a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação de 1999 e a Dominus Iesus de 2000.

Em 2011 houve um encontro simbólico com os cristãos evangélicos, nas pegadas de Lutero, no mosteiro agostiniano de Erfurt. No encontro, o Papa da Alemanha disse (talvez muito abertamente) que não trazia consigo um “dom ecumênico” e que desconfiava de dissimulações e cálculos. Isso deixou seus interlocutores decepcionados. Sobre este ponto muitos eram evasivos e Bento XVI, ao contrário, insistente. Reconheceu Martinho Lutero como perscrutador de Deus, que agradou muito os cristãos da Reforma: todos os cristãos deveriam mais uma vez levar à luz do mundo a própria fé. In primis, deveriam se preocupar com suas próprias coisas e de uma fé profunda, para depois automaticamente espalhar e fé ecumênica no mundo. “Para isso ajuda não a mitigação da fé, mas somente o vivê-la integralmente no nosso hoje. Esta constitui uma tarefa ecumênica central, na qual nos devemos ajudar mutuamente: a crer de modo mais profundo e vivo. Não serão as táticas a salvar-nos, a salvar o cristianismo, mas uma fé repensada e vivida de modo novo…”.

Um Papa na busca de Deus

Desta busca lhe derivava principalmente o lema de “colaborador da verdade”: anunciar ao mundo de hoje um Deus “de rosto humano”. Não um Deus qualquer, mas um Deus que se mostrou a nós e que em Jesus comungou conosco. “O verdadeiro problema neste momento da nossa história é que Deus possa desaparecer do horizonte dos homens e que, com o apagar-se da luz vinda de Deus, a humanidade seja surpreendida pela falta de orientação. Conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na Bíblia: tal é a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo”. Portanto Bento XVI não considerava prioridade o menor rigor ao celibato, o sacerdócio feminino, a comunhão ou os problemas sexuais, mas a diminuição de intensidade do pedido de Deus na sociedade ocidental.

Um Papa às vezes enigmático – e ao mesmo tempo biblicamente um “sinal de contradição”. Um dos paradoxos de Papa Bento XVI era que apesar de toda a força da sua fé, tenha permanecido sempre na busca de um Deus desconhecido de modo mais radical do que seus predecessores. Enquanto dentro da Igreja e no cristianismo muitos o consideravam um conservador, ele estava sempre em busca dos descrentes. Dos homens e mulheres que procuravam a fé. Sob sua sugestão, foi criada em 2011 uma iniciativa no Vaticano, com um título um pouco excessivo, chamada “Átrio dos Gentios” com o objetivo de dialogar com intelectuais e artistas. Além da cúpula das religiões e da Igreja, Bento convidou pela primeira vez em Assis para participar da marcha pela paz uma delegação de descrentes (mais tarde, na sua presença foi pontualmente definida como um novo “Humanismo do século XXI”). Crentes e descrentes participaram da procissão a pé na cidade medieval de São Francisco. Na ocasião marchava também nas proximidades a feminista e psicanalista parisiense Julia Kristeva. Mais tarde ela declarou que admirava em Bento “a sua confiança no humanismo leigo”, a “sua fé – in senso lato – na Europa secularizada”.

De modo irritante, Joseph Ratzinger, mesmo sendo chefe de uma comunidade religiosa, sentia-se vulnerável aos céticos e aos que se movem em um caminho de busca. Já nos tempos em que era professor em Tübingen, tinha identificado o “oceano da incerteza” , “como o único lugar possível da sua fé”; ele via mesmo o crente mais determinado “sob a constante ameaça de cair no vazio” e “sufocado pela água salgada da dúvida, que o oceano lhe lança, sem cessar à boca”. “Quem deseja fugir à incerteza da fé, há de experimentar a incerteza da descrença que, por sua vez, jamais conseguirá resolver sem sombra de dúvida a questão de se, por acaso, a fé não se cobre com a verdade”.

Não são apenas pensamentos insólitos para um Papa. Há também um novo ponto de vista, como explica o Cardeal Gianfranco Ravasi: crentes e descrentes não são hostis entre eles, mas estão um ao lado do outro, e olham para a mesma direção as questões fundamentais da vida.

*O texto é uma versão atualizada de: Stefan von Kempis, Papa Francisco – quem é, como pensa, o que o espera, LEV 2013, p.34-43

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